
"Tenho os olhos cheios de estórias, como os meus olhos estão cheios de mundo. Quero falar-te deste mundo com o meu corpo aqui sentado – enquanto este lume, onde nós somos, é uma vida a fazer um brilho e uma memória, tão fortes como as figuras que se transformam e multiplicam diferentemente por estas brasas e que passam pelos olhos, atentos, de todas as gerações.
Senta-te aqui junto ao nosso quente e ao vento que oiço por baixo dos nossos pés (e que vem acolá daquelas frinchas) e à parede que escorre uma caliça humilde.
Senta-te aqui, querida neta, a ouvir as histórias como o meu bisavô Celerino ouviu do seu pai e do seu avô e do seu bisavô e o seu bisavô do seu bisavô. Os grandes homens ouvem as estórias. Depois, entregam-nas ao mundo. Só assim o mundo fica mágico e mais sábio. E completo.
Senta-te, querida neta, neste meu amor que é o amor pelo mundo a despontar a beleza arrancada à terra que vem cheia de raízes. Tanta raiz a crescer no corpo. Tanta raiz que é do corpo. O corpo é da terra e só a ela lhe pertence. A terra dá estórias ao mundo, para sempre, estórias de verdade, como esta que começa assim para ti:
Antigamente os vivos não morriam, querida neta. Não havia morte, diziam os antigos."
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